“Vale a pena ver de novo!”
Mais uma vez retomamos uma situação aparentemente banal – a premiação do Oscar em Hollywood. Na realidade, esta matéria é somente um pretexto para tratarmos de um assunto tão corriqueiro que nem nos damos conta na maioria das vezes. Isto porque achamos normal no universo televisivo a divulgação dos nomes dos (as) artistas premiados (as) da indústria cinematográfica. Aqui trazemos um desabafo do ator global Antonio Pitanga que parece sentir na própria pele as injustiças cometidas ao longo da sua carreira na emissora mais poderosa do país ( em termos de audiência, é claro), apesar das famosos controvérsias envolvendo a qualidade da sua programação. O ator declara que, apesar dos longos anos de dedicação não se recorda de nenhuma premiação voltada para atores negros que tiveram um bom desempenho em suas atuações, incluindo-se ele. Diante disso, a conclusão que tiramos é que em pleno século XXI ainda assistimos a este tipo de segregação. Sabemos que a arte cinematográfica é praticada em vários lugares do mundo. Será se não merece destaque nenhuma dessas atuações de atores que, por acaso são negros. Até quando continuaremos a pensar de acordo com o modelo eurocêntrico que ainda prevalece no Ocidente?
(Por Patricia)
Antonio Pitanga: O negro não escreve, dirige, nem faz parte dos críticos
Em pleno século 21, estamos vivendo um divisor de águas na indústria cinematográfica. O audiovisual é uma das categorias mais democráticas de arte. Ou pelo menos deveria ser. É uma magia que pode ser realizada por todos, independente de sua raça, nacionalidade, orientação sexual etc.
O cinema pode ser feito por atores. Atores brancos, ruivos, negros, indígenas, europeus, brasileiros, americanos… Por pessoas que tenham o real saber sobre esta arte.
Num momento em que há tanta discussão acerca da falta de espaço para o negro na indústria [levantada especialmente pela falta de negros entre os atores indicados ao Oscar 2016], afirmo que não existe ator negro. Existe ator.
Mas não posso deixar de falar sobre a falta de igualdade que perpetua. O negro não está escrevendo, dirigindo, nem fazendo parte do grupo de críticos. Hoje, 95% dos profissionais do cinema são brancos. Então, precisamos entender que isso se deve a questões culturais e não raciais. Os maiores empresários, diretores, roteiristas e críticos são brancos. Então o universo deles está focado ali.
A luta por um sistema igualitário começou com o grito de pessoas como eu, Milton Gonçalves, Ruth de Souza, Léa Garcia, Abdias Nascimento, Grande Otelo e tantos outros. Nunca pedimos espaço para nós, negros. Pedimos igualdade entre nós e todos os outros artistas. Com tantos países como Brasil, África e Estados Unidos encabeçando grandes obras, não é possível que não tenhamos profissionais negros capacitados participando dessas produções. Daí o estranhamento com a ausência de negros indicados ao Oscar, por exemplo.
Para se ter um julgamento democrático, é preciso que as pessoas tenham minimamente noção do que está sendo produzindo no mundo. E o que acontece hoje é que esse julgamento ainda é dirigido por uma parcela de pessoas colonizadoras. Ou seja, crescem os estereótipos.
Mesmo o negro já tendo mostrado seu potencial e erguido impérios, se consolidado no mundo da arte, música e até se tornado presidente de uma das nações mais poderosas do mundo, como os Estados Unidos, ainda nos deparamos com situações, no mínimo, exclusivas. E é preciso pensar.
Indicados ao Oscar 2016 de melhor atriz e melhor ator
Se não tivermos, não negros, mas pessoas que conheçam a cultura negra, escrevendo, produzindo, dirigindo e criando, não teremos um sistema igualitário na indústria cinematográfica.
Com 57 anos de carreira, me pergunto onde está o sentido de entender a contribuição ou participação de um trabalho feito nas décadas de 1950 e 1960, quando o cinema ainda não tinha essa afirmação cultural brasileira e estávamos criando um processo de resgate e de afirmação. E eu estava lá não como um ator negro, mas como ator.
Alguns frutos maravilhosos ficarão eternizados: “Bahia de Todos os Santos”, “Estrada do Amor”, “Barravento”, “A Grande Feira”, “O Caminho da Esperança”, “O Pagador de Promessas”, “Tocaia no Asfalto”, “Senhor dos Navegantes”, “Lampião, o Rei do Cangaço”, “Sol sobre a Lama”, “Ganga Zumba”, “Esse Mundo É Meu”, “Fábula em Copacabana”…
Faz 10 anos que tento captar para fazer “Malês”, uma história negra, que acontece no norte da África, dos negros muçulmanos que vão para a Bahia antes da chegada de Dom João 6º. Esse é o maior levante que aconteceu na história desse país, protagonizado por negros para tomar o poder. Negros do candomblé e do catolicismo contra o regime da escravidão.
Estou há 10 anos tentando esse financiamento e não consigo. Tenho um dos melhores produtores do Brasil, um elenco fantástico composto por Seu Jorge, por exemplo, hoje uma referência musical na criação de trilhas sonoras. Mas cadê o financiamento?
Dia desses, o meu filho Rocco Pitanga me perguntou: quando é que o negro vai ter coadjuvante? Ele é sempre coadjuvante do branco? É uma coisa muito delicada.
Não podemos cair na esparrela de exigir o espaço para o ator negro. O espaço tem que ser igualitário. Pois a alma do cinema não tem cor.
* Antonio Pitanga, 76, é ator e atuou em mais de cem títulos no cinema e na TV, entre eles os filmes “O Pagador de Promessas”, “Barravento” e “Os Pastores da Noite”, e as novelas “O Rei do Gado” e “Dona Beija”.

