NÃO ÉRAMOS FORTES - Meu nome é Johni

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NÃO ÉRAMOS FORTES

NÃO ÉRAMOS FORTES

“No nosso tempo, era todo mundo sacaneando todo mundo. E todo mundo levava numa boa, dava risada”.

            A frase acima, eu a ouvi recentemente de um grande amigo, quando relembrávamos juntos o período em que éramos adolescentes.

            Segundo ele, pelos idos da virada do milênio, nós vivíamos em um mundo mais interessante, ou, pelo menos, mais divertido.

            Hoje, de acordo com ele, é preciso pisar em ovos o tempo inteiro, pois, toda e qualquer brincadeira, mesmo sendo simples zoação de colegas, pode ter desdobramentos perigosos.

            A hipótese dele é que, em algum dia ali pelos anos 2000 e por alguma razão ainda desconhecida, nós nos tornamos mais frágeis. Fracos ao ponto de nos deixarmos abalar por aquilo que, semanas antes, nos fazia rir.

            Meu amigo não está sozinho em sua teoria acerca da degeneração da força psíquica das novas gerações, supostamente mais susceptíveis à fratura diante da vida. Trata-se de uma ideia compartilhada por muitos, volta e meia publicada e republicada em redes sociais ou mesmo em ou outro artigo de jornal.

            Em certa medida, trata-se de uma nostalgia do passado que funciona como elogio à geração de ontem em face daquelas que vêm. Um modo de lidar com o nosso declínio em face de um tempo que não cessa de movimentar-se; certa relutância em passar o bastão adiante e admitir a nossa pouca ou nenhuma permanência: a nossa altissonante irrelevância diante da história.

            Um apelo à atividade compensatória que jaz na retentiva idealizada da memória: éramos fortes.

            O que talvez o meu amigo não perceba – porque quase nunca somos conscientes das ideologias que falam por intermédio das nossas bocas – é que nós não éramos mais fortes do que estes, que agora estão no mundo. Simplesmente vivíamos em um mundo em que a tônica era a aparência de uma força impossível de se ter. Ocultávamos as nossas fragilidades como se, nesse gesto, salvaguardássemos a nossa afirmação no mundo. Engolíamos o choro como se, na expressão contraída e vermelha do rosto, fôssemos mais aptos para a vida. Guardávamos o silêncio, como se a voz que saísse trêmula fosse o nosso atestado de fraqueza, a nossa inconteste prova de incapacidade.

            Na real, apostávamos que sermos fortes significava fingir não termos as fragilidades que tínhamos (e que temos).

            Em meio às brincadeiras entre amigos, o silêncio ou o riso canto de boca, mal disfarçando o amarelo à mostra, não era muitas vezes conforto, mas calvário.

            O bullying não é, hoje, uma realidade mais dramática do que o era ontem, quando nós ainda não conhecíamos este termo. As consequências do bullying não são, hoje, mais terríveis do que o eram quando nós, eu e o meu amigo, éramos ainda jovens. Basta que perguntemos aos fantasmas que nos assombram à noite o quanto de sua não-matéria é composta do que ríamos sem rir; das dores que fingíamos não ter.

            (O que o meu amigo não sabe é que, entre nós, no círculo mais íntimo de nossas amizades de pequenos, houve quem tivesse o fio da vida roído a ponto de quase se romper. E que o fato de não se ter desgastado o suficiente não tem nada a ver com resiliência, ou coisa do tipo. Mas de ter compartilhado, entre amores, um território de cuidados. Não tem a ver com ser forte, mas com encontrar-se com quem seja força em nós).

            Se nós, hoje, compreendemos o perigo que jaz na prática do bullying, retirando-a do âmbito da brincadeira e realocando-a no que de fato é, violência, é porque esses, que vieram depois de nós, tiveram a força que nós, os de ontem, não tivemos: situar as fragilidades no campo do visível.

            Porque ninguém é a fortaleza que se supõe ser. Há mil milhões de micro-rachaduras no mais aquém de nossas peles, de nossos músculos e ossos.

            Trazer a dor e o sofrimento para o campo do comum, daquilo o que é reconhecível em uma linguagem cotidiana compartilhada, é gesto de mais força e de mais saúde do que evitar o contato, fingir a inexistência, dizer que está tudo bem quando não.

            Mudar o nosso comportamento em face da promoção da dor no outro, quando por ele motivada, não é uma aporrinhação, mas um compromisso ético: ressituar os nossos encontros em uma esfera do cuidado. Eis uma das urgências de nosso tempo.

De todos os tempos.

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A LUTA CONTINUA. JOHNI VIVE!

Imagem:  Reprodução Internet

23/05/2022 | Autor: Comunidade Johni Raoni 

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