1991 – Relato de violência e preconceito - Meu nome é Johni

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1991 – Relato de violência e preconceito

1991 – Relato de violência e preconceito

O Brasil ainda estava saindo da ditadura. Todo aquele ranço fascista… aquele ódio do que desafiava o status quo – camisetas pretas, calças jeans rasgadas, penteados que fugissem do padrão, gostar de música que não fosse o que tinha sido inspecionado, espionado, dirigido, legislado, regulamentado, parqueado, endoutrinado, predicado, controlado, calculado, apreciado, censurado, comandado – nunca era tolerado.

E eu era apenas uma criança de 16 anos.

Uma criança que conheceu Ramones por acaso. Que perguntando por aqui e por ali, conheceu a Galeria do Rock. Que era a galeria do rock naquela época, e não a galeria das camisetas. Que, juntando o salário por um mês, conseguia comprar um ou dois LPs. Ou um LP e quatro fitas cassete gravadas.

E eu era apenas uma criança.

E como criança que eu era, apaixonei-me por outra criança do meu bairro.

O nome dela era Camila. Não me lembro do sobrenome dela. Talvez era Mostarda? Porque o pai dela era o seu Mostarda, o bêbado do bairro. O cara que tinha feições de palhaço, que só falava coisas sem sentido pra nós, crianças de quatorze-dezesseis anos. O cara que fazia a filha passar vergonha.

O alcoólatra.

E eu a amava. Do meu jeito inocente, idiota, imbecil, inconsequente. Insípido, inodoro e… era o que eu sabia fazer. À distância.

Meados de fevereiro de 1991, chamei-a para ir em uma festa junto com um amigo meu. Melhor amigo que eu já tive, infelizmente perdido nas quebradas da vida. Fomos. Era uma festa de “rock” – qualquer um levava uma fitinha lá e a fitinha era tocada no som potente de 100 watts da Gradiente. E nos divertíamos, tomando coca-cola com álcool zulu quando a cerveja acabava.

Na saída, um grupo que certamente seria chamado de “justiceiros” nos aguardava do lado de fora. Onde já se viu gente com a cabeça raspada do lado? Vestindo preto? A classe média jamais toleraria isso! Fui chamado de diversos adjetivos que me fogem à memória. O único suficientemente imbecil que me lembro até hoje é “Batman” – afinal, eu estava de camiseta preta, jaqueta de couro e coturno.

Retribuí os olhares e fui embora. Grande erro.

Eu, meu melhor amigo e minha paixão platônica caminhamos por cerca de três quarteirões em direção à nosso bairro e fomos fechados por um Voyage branco.

Daqui em diante é o que me contaram que aconteceu, pois não lembro de nada.

O cara que estava dirigindo o carro – Adab, fiquei sabendo mais tarde – saiu do carro com um revólver na mão. O carona dele, com uma trava de direção na mão. Daquelas de aço, que são prendidas no volante e no pedal do acelerador.

“Aí roqueiro, cê é folgado!”

“Corre!” eu disse pros meus acompanhantes. Mas eu fiquei.

Pelo que me contam, o primeiro que veio pra cima de mim foi pro chão na hora. O tal de Adab*. Depois tomei uma barra de aço na cabeça. E mais quatro foram pra cima de mim, batendo sem dó. Sem parar. Queriam me matar. As únicas lembranças que tenho são de me urinar e de não querer encostar o joelho no chão – eles não me venceriam.

E me bateram. E bateram. E bateram.

Mas não me venceram.

Creio que se cansaram e foram embora. Pedi ajuda por uns 30-40 segundos aos vizinhos, mas ninguém respondeu. O único som que eu ouvia era o som de algum líquido caindo no chão. Logo percebi que o som era do meu nariz, quebrado, que sangrava. Me lembrava de uma torneira aberta jorrando.

Cambaleei, sem rumo, procurando ajuda – um orelhão, uma pessoa, qualquer coisa. Achei uma pizzaria. Pedi socorro. Me lembro do dono, um cara de meia idade gordo e careca, me falando que iria chamar a polícia. Olhei para a caixa e ela caiu em prantos. Logo achei um espelho. Me olhei e – juro – não me reconheci.

Minha cabeça parecia um chiclete roxo mastigado. Não reconheci minhas feições no espelho de tão desfigurado que eu estava. Inchado, roxo, sangrando, quebrado, deformado. Algumas pessoas choravam. Outras, pediam para que eu esperasse do lado de fora. Comércio é comércio, convenhamos.

Logo a polícia chegou. Me fizeram algumas perguntas. “Ih, até sei quem foi. Quer ir procurar os caras pra registrar queixa? Mas, sinceramente, não vai adiantar nada.”

Desisti.

Me levem pra casa, por favor.

Chegando em casa, um dos policiais – o carona – foi falando um monte de coisas pra mim sobre os caras que me bateram. Coisas do tipo que eles eram conhecidos no bairro, que praticavam pequenos furtos (heh), eram envolvidos com drogas (heh), mas que não dava pra fazer nada contra eles.

O policial concluiu o raciocínio com a seguinte frase:

“Também, quem mandou você ser roqueiro?”

Depois disso me calei. Me calei por anos. Ainda me calo. Quem mandou eu ter a cultura que tive? Quem mandou? Eu certamente mereci apanhar, ter um afundado no meu lobo frontal até hoje, meu nariz quebrado, hematomas pelo meu corpo inteiro, ter sido internado pouco depois por depressão e choque…

Porque sou “roqueiro”.

Ainda bem que não sou negro, homossexual ou nordestino.

Ou mulher. Pasmem.

Nunca mais vi Camila Mostarda.

Caio Soares – Fevereiro de 2014

12/02/2014 | Autor: Comunidade Johni Raoni

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